Assassinato do radialista Jairo de Sousa completa 3 meses; investigações continuam

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Quem matou e quem mandou matar Jairo de Sousa?

Texto Angelina Nunes
Fotos Rafael Oliveira

O assassinato do radialista Jairo de Sousa, de 43 anos, em Bragança, no nordeste do Pará, completa 3 meses nesta sexta-feira, 21 de setembro, sem que nenhum suspeito tenha sido apontado. Para pedir celeridade nas investigações, Jairo José Sousa Jr., de 18 anos, filho do radialista, disse que está programada para hoje uma manifestação na cidade. Junior, como é chamado, ajudava o pai na rádio e nutre o sonho de ser radialista: “O espírito de luta dele está em mim. O que está errado tem de mudar. Medo, a gente sempre tem, mas a luta não pode parar.”
Os dois tiros que mataram seu pai levantaram um véu que encobre transações de negócios públicos e privados na região. O crime espalhou medo em outros colegas de profissão e revelou a existência de uma lista de quatro alvos marcados para morrer – o radialista era o segundo nome na lista. Há 12 anos, ele usava colete à prova de balas por conta das ameaças recebidas ao longo de sua carreira em emissoras de municípios vizinhos e em Bragança. Naquela madrugada, estava sem o colete.
Em seu programa, que começava às 5h, Sousa fazia denúncias, como obras realizadas por empresas que pertencem a parentes de prefeitos e secretários, falta de merenda escolar, editais com licitações direcionadas e oferta de emprego feita por secretário a vereadores em troca de votos e apoio político. Horas após a sua morte, uma força-tarefa foi montada em Belém e iniciou a investigação, que está sob sigilo.
O caso está a cargo da equipe do diretor da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Pará, Fernando Bezerra, que recebeu os áudios dos últimos dois meses do programa de Jairo, onde ele cita pelo menos duas dezenas de pessoas ligadas às denúncias. Essas pessoas já foram ouvidas pelos policiais, que continuam em diligência pela cidade.
A rotina do radialista era conhecida por seus ouvintes. Ele não escondia os horários de chegada, dez minutos antes de começar o programa, e de saída da rádio, quatro horas mais tarde. A polícia investiga quem seria o mandante e o atirador, que estava em um carro estacionado em uma rua próxima. Em um vídeo, o assassino sai do carro, caminha na direção do prédio onde fica a rádio e depois volta correndo para o veículo, onde estariam outros dois homens.
A investigação do delegado Dauriedson Bentes da Silva já identificou a existência de um segundo carro que ficou parado próximo ao portão que dá acesso a uma escada no antigo prédio sem elevador, onde a rádio está instalada, no quarto andar. Além de dar cobertura ao assassino, a função dos ocupantes do carro seria a de identificar o radialista.
Programa Tim Lopes
A morte de Jairo de Sousa é o segundo caso investigado pela equipe da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) dentro do Programa Tim Lopes, financiado pela Open Society Foundations. O primeiro foi o de Jefferson Pureza, de 39 anos, em Edealina, no interior de Goiás, executado com três tiros na cabeça quando descansava na varanda de sua casa, em 17 de janeiro de 2018. Seis pessoas estão detidas.
O vereador José Eduardo Alves da Silva (PR), acusado de ser o mandante, e outros dois homens que participaram da negociação do crime, esperam o julgamento. Três menores cumprem medidas socioeducativas: um atirou, o outro pilotou a moto e o terceiro recrutou os dois para a realização do crime, que custou R$ 5 mil mais um revólver 38.
Os dois casos mostram uma realidade do chamado Brasil Profundo, onde o trabalho de comunicadores encontra-se sob risco, na medida em que aumentam o tom das denúncias contra as autoridades locais.
A lista e o medo
Para quem está na lista dos quatro alvos, o medo é presente, e todo cuidado é necessário. O repórter Ronny Madson, da Rádio Educadora, disse que ele integrava um “grupo investigativo” ao lado de Sousa, do advogado e vereador Rivaldo Miranda (PMDB) e do empresário Gleidson Veras. Eles coletavam provas e documentos e faziam denúncias de corrupção que eram veiculadas nas rádios, nas redes sociais e na tribuna da Câmara. Veras saiu com a família da cidade e ficou longe por 15 dias. Miranda buscou autorização para comprar um colete à prova de balas e obter porte de arma.
O vereador é autor de várias representações contra a gestão municipal. Em uma delas, de 17 de julho de 2017, pede ao Ministério Público de Bragança providências para os crimes de corrupção ativa, condescendência criminosa, prevaricação e improbidade administrativa por conta de oferta de trabalho em troca de possível apoio político.
Em uma ação popular, de 2 de abril de 2018, o vereador conseguiu suspenderuma licitação para pavimentação de ruas em Bragança, no valor de R$ 2,9 milhões, alegando edital viciado. No item de qualificação técnica, a empresa licitante deveria ser proprietária ou arrendar uma usina de asfalto na região. Na área da chamada microrregião bragantina, onde estão 13 municípios, apenas a empresa da família do prefeito tem uma usina de asfalto. A licitação suspensa voltou meses depois, sem o item questionado na ação.
O prefeito Raimundo Nonato foi procurado na cidade pela equipe da Abraji por três vezes e cancelou um encontro marcado. Seus assessores alegaram que ele estava muito ocupado com atividades na prefeitura e lamentavam não poder atender ao pedido.

*Angelina Nunes é mestre em Comunicação pela Uerj (RJ). Ela recebeu prêmios internacionais de jornalismo, como Rey de España, IPYS e SIP, e nacionais, como Esso, Embratel, Vladimir Herzog e CNH. É membro do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) e coordenadora do Programa Tim Lopes.

Rafael Oliveira/Abraji

Rafael Oliveira/Abraji

Rafael Oliveira/Abraji

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